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Resenha: O Clube do Filme

on 15:58 in
               O Clube do Filme
 
de David Gilmour,
editora Instrínseca.

“Mas mesmo agora, ao escrever estas palavras, sou cauteloso. Lembro minha última entrevista com David Cronenberg, durante a qual comentei, com um pouco de melancolia, que educar filhos era uma sequência de despedidas, um adeus após outro – às fraldas, aos agasalhos de neve, depois às próprias crianças. ‘Eles passam a vida partindo’, eu falei, e Cronenberg, que também tem filhos adultos, me interrompeu: ‘Sim, mas será que eles realmente partem?’”

A verdadeira dimensão das palavras de Cronenberg só atingiu David Gilmour muito tempo depois, quando o crítico de cinema se viu diante de um desafio: o futuro de seu filho Jesse estava em suas mãos. E David não teve se não a melhor das intenções quando decidiu que seu filho de 16 anos – com notas decadentes, faltas excessivas e um descaso com o estudo – poderia deixar de ir à escola, se assim desejasse. Quando Jesse aceita, surpreso, a proposta, pai e filho selam um acordo: a única educação do rapaz viria do cinema. Um “clube do filme”, três filmes por semana e nada mais.
Nem o próprio David tinha noção do que poderia acontecer – como ele mesmo escreve em diversas passagens do livro. O medo de ter cometido um erro e jogado o futuro de seu filho mais novo no lixo o acompanha por todo o caminho, e o leitor divide a angústia desse pai preocupado. (A imagem de Jesse como motorista em um táxi enfumaçado de maconha não sai de sua cabeça…)
Acompanhamos o crescimento de Jesse e a evolução no seu relacionamento com o pai junto com uma seleção de filmes que vai de Showgirls (1995) a Amores Expressos (1994) em cerca de 3 anos. A cada filme David divide com os leitores um pouco do que sabe e pensa sobre a obra e, mais que isso, muito do que dividiu com seu próprio filho.
Jesse fuma demais, bebe, se apaixona, se desilude, se envolve com crack, arruma um emprego em um restaurante, se apaixona outra vez, volta a sofrer por amor, vira rapper… Enfim, vive os altos e baixos comuns à adolescência. Sempre no limite entre o interesse e a desatenção, o garoto cresce vendo filmes de todos os tipos enquanto nós o assistimos durante todo o processo – muitas vezes doloroso, mas sempre crucial.
David Gilmour não tentou ser o pai-camarada-modernão. De forma alguma. Percebemos isso ao longo de sua narrativa, enquanto divide seus questionamentos e visões sobre Jesse. David simplesmente impediu que seu filho virasse as costas não só para a escola – o que poderia fazer a qualquer momento -, mas para ele.
 Recomendo não só para quem gosta de cinema, mas para quem gosta de uma leitura leve e sensível. Não tive vontade de largar o livro enquanto não terminasse, tanto por querer descobrir o que aconteceria com Jesse, quanto porque ficava curiosa pra saber quais seriam os próximos filmes.

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